quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Terre D'Hermes

Durante a noite ele chegou com toda a força que podia para seduzi-la. Voltar a abraça-la, despi-la de tudo o que a cobria, amá-la mais uma vez. Distante, ela agora estava ainda mais perto do toque frio que a desfazia e que lhe dava novas forma. Ao fundo um raio caía e iluminava por instantes este amor que se repetia cada vez que se encontravam. Em cima, as nuvens tapavam-nos numa cama de desejos aguardados. Na violência que geravam, um beijo a cada toque, o frio que deslizava no corpo dela, que não se mexia, para ser seduzido. Ele frio, doce, agressivo nos seus intentos, ela gélida, rígida na sua grandeza. Percorria cada curva, cada saliência deste corpo que via ao longe sem conseguir tocar. Hoje, ela voltava a ser sua, e ele lutava para beija-la no topo uma vez mais, talvez a última nessa noite.
De manhã, os pés calmos dele imprimem-se na areia perdida. Cheio de si, respira o ar que o acalma e entrega-se ao medo de não voltar a amar. Na manhã de Inverno a maresia parece responder à sua súplica de solidão. Mas ele, ainda longe de perceber que a maresia é o suor daquele amor que os violentou, ignora-os.
Na eternidade de um temporal o mar amou a falésia, sem saber se a voltaria a amar, e ao longe sorriem, um para o outro, da ingenuidade dos passos que se imprimem.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Beyond Paradise

As mãos passam por cada estante que encontra, procurando um corpo que cada dia se afasta mais. Num intervalo de si, sentia-o ainda numa doçura que a cativara, numa ternura que a embevecera. E agora a solidão apoderava-se de cada inspiração sôfrega. Lamentava não poder senti-lo de novo perdido em si. Uns olhos ternos que se escondem por trás da cor que fazem brilhar. Um desconhecido que despertara nela vida e medos escondidos. Resgatada por momentos e novamente presa nas suas grades de ansiedade. O herói que a defendera e a seduzira, parte agora para o mar, na construção de uma aventura em que ela não se inclui. E, largada no silêncio que a sua casa lhe dera, sente-se completa na paz que o som ofusca. A felicidade está no silêncio que a cerca e no sonho da carta que não chegará. Ainda assim, percorre a casa sedenta de paixão, acariciando o corpo distante do marinheiro que não a quis prender.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

UOMO



Sentado à janela, olhando o fundo da rua, ele espera que seja diferente. O chá fumegante é o repouso do olhar que sorri e uma música ao fundo ocupa-lhe ainda o pensamento. A camisola perfeita, a casa arrumada e alguma curiosidade no tempo que passa. Uma companhia que busca mas não é a certa. Um olhar de criança que quer ser descoberto, nutrido de um imaginário que já não existe, que se esconde atrás de uma árvore, que acarinha com o sorriso, e brinca consigo no que esconde de si a quem chegar. No luscofusco do dia, a campainha toca, falam, entregam-se, em partes, em momentos, dois corpos que não se conhecem que chocam e que se desejam. Que se querem encontrar a medo, que querem dar e receber prazer, partilhar-se. Um beijo desencontrado, quase prefeito, outro perfeito mas falhado, e depois... Dois corpos perfumados que se impregnaram do cheiro alheio e que persiste mais além, horas depois, numa cama solitária. Tudo porque o futuro ficou na campainha que tocou.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Egoiste



Para a Paulinne

Lá fora a colina, o rio e os telhados. Cá dentro ela deixa-se ir sem destino nos carris que a prendem sentada num eléctrico vazio. Na próxima paragem um rapaz entra e senta-se à sua frente. O ar pesa por entre aqueles olhares que se cruzam. Um sorriso que se espelha nas sobrancelhas. O rapaz perdeu o emprego, não come desde manhã e esquece-se de si, ali. Ela quer que ele olhe de novo, doce, como se a pudesse amar. Ela olha-o e ele vê-a reflectida no vidro. Cada sarda brilha com os movimentos do eléctrico. Ela tira o chapéu, corada, no calor do eléctrico que se encheu. Ele pisca o olho e lá fora alguém responde - doce princesa de azul – e as sardas agora são uma lágrima que cresceu dentro, ainda antes da paragem em que ele entrou. Porque ela não o esperava e nem ele sabia que ela existia. E agora que ele a conhece, ela sabe que ainda está sozinha presa nos sentados carris do eléctrico que regressa.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Tango

She strips the strings of the violin. With no sorrow. With no fear. A hand that can’t melt
each sound, each man. That attracts and moves away with a single note. A desire that grows above herself. A tear, a smile, an eye, a glove and an old shoe. Loneliness in all objects. The closed window and just a dream of a love in her mind. And they dance …because the bandoneón still screams outside in the rain of Montevideo.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Sem Titulo II

Passa pelo primeiro vizinho e um boa noite sai por entre os dentes, passa o cão que corre ofegante, desce a rua, o ar frio parado corta-lhe os pulmões. Os olhos vítreos por entre o ar, as pessoas que seguem à sua frente. Os carros que passam seriam... mas o sinal passa a vermelho. O pedinte podia... mas adormecido pouco pode. A casa vermelha, mais uma montra. Aquela loja que não visitou. A música que continua ainda na sua cabeça, os versos perdidos, a melodia que não para, e repete, repete. Um táxi. O peito ainda lhe dói, só não sabe porquê. A ira que lhe corre no sangue e que faz com que o seu coração bata fora do peito, no frio do ar que corta. Enfim chega. Quero um desses. Pode ficar com o troco. O casaco deixa passar para fora o frio que sente dentro de si. Um homem que a segue, talvez seja este... mas muda de lado, depois de rua, perde-se. Sobe a rua, abre a porta e sobe as escadas sem acender a luz. Entra e um cigarro pouco a pouco queima-lhe o peito, o desgosto, a ansiedade, a solidão, a traição não cumprida, o abandono de si mesma...

Sem Titulo

Ela queria ser amada, ainda.
De modo diferente, olhada, acarinhada, começar de novo, escrever cartas de amor, breves mensagens, talvez.
Alguém que a desejasse porque não a poderia ter, logo.
Alguém que a protegesse porque a não podia magoar. Alguém que a sonhasse por ela mesma, pelos sonhos que ela não conseguia, já.
Imaginar a sua voz, longe.
O toque de uma pele que não conseguia, por breves instantes. O beijo de uns lábios novos no seu corpo, raso.
Perder-se numa solidão que não sabia que sentia. Habituara-se a estar sempre acompanhada sem tempo para perceber que estava mais só, ainda.
Uma voz que não lhe gritasse, que não a magoasse, que não a desejasse, que não a ansiasse, mais.
Um olhar, do outro lado, que ela só queria que a visse, primeiro.
... mas perdeu-se, e voltou onde estava, igual.
Nem ele a percebeu, perdida.